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 Revista toxicodependências

 
Revista nº: 1/1995
CONTENTAMENTO E PRAZER (PARA UMA PERSPECTIVA PSICO-ANTROPOLÓGICA DAS TOXICODEPENDÊNCIAS)

Nuno Felix da Costa

RESUMO
Tenta-se um enquadramento psico-antropológico para a toxicodependência. Tomando a dependência de heroína como paradigma, as toxicodependências são concebidas como perturbações motivacionais adquiridas em contextos socioculturais que moldam a sua forma clínica. O processo de aquisição motivacional é muito rápido, dependente do potente efeito de reforço positivo sobre o S.N.C. A motivação para o abuso da droga toma um lugar de cada vez maior relevo na hierarquia de motivações do indivíduo, até subordinar a si todas as outras.
Neste trabalho os princípios que determinam o comportamento no S.N. humano são considerados desde o nível psicofisiológico e psicológico até ao nível antropológico. Estes princípios de ação, associados a motivações básicas, organizam os comportamentos dos organismos a partir da antinomia prazer/dor desde um nível filogenético muito inferior ao humano. As toxicodependências são artefactos que se introduzem nas regulações destas motivações e curto circuitam-nas autonomizando o prazer da sua função ligada à sobrevivência para uma finalidade que se esgota no prazer que a droga proporciona. Por outro lado aponta-se a tendência da filogenia humana para a complexificação, designadamente pelo grande desenvolvimento do neocortex, em particular dos lobos frontais responsáveis pela antecipação das recompensas e pela faculdade do planeamento da ação. Da mesma forma o processamento simbólico da informação na linguagem possibilita uma emancipação em relação ao concreto das necessidades imediatas que distingue definitivamente o Homem dos outros animais. Definem-se assim dois níveis de decisão com princípios de ação opostos e de cuja interação resultam tensões, conflitos e equilíbrios provisórios expressos no comportamento do indivíduo. As toxicodependências subvertem esta negociação entre objetivos imediatos e as vantagens a prazo. Desta forma se chega à distinção entre o prazer ligado a motivações fisiológicas ou básicas as quais procuram uma satisfação imediata, necessária ao interesse da espécie e à sobrevivência do organismo, e no polo especificamente humano, o contentamento que resulta da aproximação a objetivos a prazo. Conceitos como liberdade e responsabilidade são nucleares não só na conceptualização da relação do cidadão com o Estado mas, na reabilitação dos doentes toxicodependentes, direcionam e alimentam comportamentos orientados para a realização pessoal que conferem estabilidade à suspensão dos consumos de drogas.
Palavras-chave: Toxicodependência; Motivação para o consumo; Psicologia; Antropologia; Efeitos da droga; Comportamento.


RÉSUMÉ
L'auteur essaye un encadrement psycho-anthropologique pour la toxicomanie. Prennant comme paradigme la dépendance d'heroíne, les toxicomanies sont conçues comme des perturbations motivationelles acquises dans des contextes socio-culturels qui moulent sa forme clinique. Le procès d'acquisition motivationnelle est très rapide, dépendant de l'effet puissant du renfort positif sur le S.N.C. La motivation pour l'abus de drogue prend une place plus en plus importante dans l'hierarchie de motivations du sujet, jusqu'à subordonner à soi toutes les autres.
Dans ce travail, les principes qui déterminent la conduite dans le système nerveux humain sont considérés du niveau psychophysiologique et psychologique au niveau anthropologique. Ces principes d'action, associés à des motivations basiques, organisent les conduites des organismes en partant de l'antinomie plaisir/douleur d'un niveau philogenétique très inférieur à celui de l´homme.Les toxicomanies sont des artefacts qui s'introduisent dans les régulations de cettes motivations provocant un cour-circuit et autonomisant le plaisir de sa fonction lié à la survivance pour une finalité que s'épuise dans le plaisir procuré par la drogue. D'autre côté, on signale la tendance de la phylogénie humaine pour la compléxification, notamment par le grand développement du neo-cortex, particulièrement des lobes frontaux responsables par l'anticipation des récompenses et par la faculté de faire des plans concernant l'action. De la même façon, le processus symbolique de l'information dans le langage possibilite une émancipation en ce qui concerne le concret des besoins immédiats qui distingue les hommes des autres animaux. Sont ainsi définis deux niveaux de décision avec des principes d'action opposés et dont l'interaction cause des tensions, des conflits et des équilibres provisoires manifestés dans la conduite du sujet. Les toxicomanies subvertissent cette négotiation entre les objectifs immédiats et les avantages à long terme. Ainsi, on arrive à la distinction entre le plaisir lié aux motivations physiologiques ou basiques lesquelles procurent une satisfaction immédiate, nécessaire au bénefice de l'espèce et à la survivance de l'organisme et, dans le pôle spécifiquement humain, le contentement qui résulte de l'aproximation à des objectifs à terme. Des concepts comme liberté et responsabilité sont nucléaires non seulement dans la concéptualisation de la rélation du citoyen avec l'État mais aussi, dans la réhabilitation des malades toxicomanes parce qu'ils directionnent et nourrissent des conduites orientées vers la réalisation personnelle qui donnent une stabilité à la suspension de la consommation de drogues.
Mots-clé: Toxicomanie; Motivation pour laconsommation; Psychologie; Anthropolgie; Effets de la drogue; Comportement.


ABSTRACT
The author tries a psycho-anthropological view of drug addiction. Taking the heroine addiction as paradigm, drug addictions are conceived as motivational disturbances acquired in social-cultural contexts that shape its clinical forms. The process of motivational acquisition is very fast, depending from the powerful effect of positive reinforcement over the central nervous system. Motivation for drug abuse takes a more and more important place in the individual's motivation hierarchy, until it subordinates all the others.
In this work, the principles which determine behaviour in the human nervous system are considered from the psycho physiological and psychological levels to the anthropological level. These action principles, associated with basic motivations, organise the behaviours of organisms from the antinomy pleasure/pain, from a phylogenetical level very inferior to the human one. Drug addictions are artefacts that shuffle into the regulations of these motivations making a short-circuit and autonomising pleasure from its function linked to survival, to a finality that exhausts itself in the pleasure given by drugs. On the other hand, the author points out the human phylogeny's tendency to complexification, namely through the big development of the neo cortex, particularly of the frontal lobes responsible for the anticipation of rewards and for the faculty of action planning. Likewise, the symbolic treatment of information in language allows an emancipation from the concrete immediate needs that definitely distinguishes man from other animals. In this way are defined two levels of decision with opposed action principles and from whose interaction result provisory tensions, conflicts and balances expressed in the individual's behaviour. Drug addictions subvert this negotiation between the immediate goals and the long term advantages. In this way we arrive to the distinction between pleasure linked to physiological or basic motivations which need immediate satisfaction necessary to the interest of species and to the survival of the organism, and in the specifically human pole, the contentment that results from the approach to long term goals. Concepts like freedom and responsibility are nuclear not only to the individual's relation to state but, in the rehabilitation of drug addict patients, they direct and feed behaviours orientated towards personal fulfilment that confer stability to the suspension of drug abuse.
Keywords: Drug abuse; Motivation for drug use; Psychology; Anthropology; Effects of drugs; Behaviour.


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